O prólogo de São João resume de modo estupendo aquilo que chamamos de encarnação: o fato de o Filho eterno do Pai, Deus vindo de Deus, Luz vinda da Luz, ter-se feito homem e vivido nossa vida humana. Trata-se do mistério celebrado pela Igreja de modo especial no santo Natal.

Nós cremos que o Filho eterno é Deus com o Pai e como o Pai. Ele existe eternamente (cf. Jo 1,1s; 17,5), eternamente pleno, infinito, feliz. E, por nosso amor, para nos elevar à comunhão com o Pai no Espírito Santo gratuitamente assumiu a nossa condição humana! Com palavras comoventes, São Pedro Crisólogo, Bispo de Ravena no século IV, ensinava: “Talvez dirás: ‘Que necessidade para um Deus, de nascer? Sua potência criadora não lhe basta?’ Que necessidade? Eis: nascendo, Deus devia refazer de novo aquela natureza que ele tinha modelado por sua ação criadora. O pecado do primeiro homem tendo mortalmente ferido a natureza, esta, em vez de ser princípio de vida tornou-se origem de morte. Esse foi o grande motivo que levou o Cristo a nascer, a fim de que o nascimento do Criador procurasse a cura da natureza e aquela cura desse a vida aos filhos de Adão”.

O ex-frade franciscano, Leonardo Boff, num texto de rara beleza, observa: “Ele quis realmente ser como um de nós, como eu e como tu, menos no pecado: um homem limitado que cresce, que aprende e que pergunta; um homem que sabe ouvir e pode responder. Deus não assumiu uma humanidade abstrata, animal racional. Ele assumiu, desde o seu primeiro momento de concepção, um ser histórico, Jesus de Nazaré, que se formou na estreiteza do seio materno de Maria, que cresceu na estreiteza de uma pátria insignificante, que amadureceu na estreiteza de um povo de vila interiorana, que teve todos os sentimentos humanos e que passou pela noite escura do abandono de Deus. Tudo isso Deus assumiu em Jesus Cristo. Em nada foi poupado!” Deus se fez insignificante para que o ser humano encontrasse significado para a sua vida corrompida pela morte e pelo pecado. Que mistério tão profundo! O tempo foi tocado pela eternidade, a história foi visitada pela glória, o homem foi assumido por Deus!

A vida humana, mesmo ferida, mesmo sofrida, vale a pena de ser vivida! Tudo isso são aspectos do mistério da encarnação. Tudo isso é graça do santo Natal. Em Jesus, como diz Leonardo Boff ,“está presente o verdadeiro Deus, matando a nossa saudade infinita, assumindo nossa fragilidade, enriquecendo nossa pobreza abissal, enxugando nossas lágrimas, enchendo-nos de alegria indizível, divinizando nossa pequenez e imortalizando nossa vida mortal. Tudo isso se esconde naquele Pequenino que se move cheio de vida na manjedoura de Belém”.

Desejo-lhe um feliz e santo Natal!!!

A minha bênção sacerdotal,

Pe. Valmir Teixeira, mSC
Reitor do Santuário das Almas